A Psicoeducação como Tratamento do Transtorno Afetivo Bipolar na Terapia Cognitivo-Comportamental

O presente artigo tem como finalidade discorrer sobre o transtorno afetivo bipolar (TAB), demonstrando a eficácia da terapia cognitivo comportamental em seu tratamento, focando especificamente na técnica da psicoeducação que, apesar de ser usada por outros profissionais de saúde é uma abordagem muito importante no tratamento do TAB.

O transtorno bipolar ainda é uma enfermidade pouco conhecida e muito confundida com a esquizofrenia, principalmente em seus casos onde existem surtos psicóticos e também com o transtorno de personalidade borderline e com déficit de atenção e hiperatividade (LARA, 2009). Assim sendo, é preciso tratar o TAB com muito critério, principalmente quanto à medicação adequada que o paciente precisará usar para se estabilizar. O trabalho do psicólogo cognitivo-comportamental deve andar de mãos dadas com a farmacoterapia para ser bem sucedido.

O transtorno afetivo bipolar não é uma doença recente na humanidade, entretanto é ainda pouco comentado, apesar de não ser uma enfermidade discreta. No TAB o humor assume autonomia, deixando de responder de forma adequada, havendo variações de sintomas positivos, como aumento de energia, euforia, agitação, agressividade, impulsividade, explosividade, aumento de riscos e gastos financeiros, distração, etc., que se alternam com sintomas negativos como apatia, desânimo, tristeza, ansiedade e falta de prazer (LARA, 2009).

Sequencialmente este artigo discorrerá, primeiramente, um pouco sobre o histórico do transtorno afetivo bipolar, em seguida sobre os temperamentos e sua importância no TAB, em terceiro lugar aparece a importância da Terapia Cognitivo-Comportamental no tratamento do TAB e sua eficácia e finalmente, o que é a psicoeducação e a sua importância no tratamento do transtorno.

HISTÓRICO DO TRANSTORNO AFETIVO BIPOLAR

O que se conhece hoje como doença bipolar remonta a antiguidade, ou seja, os termos “mania” e “melancolia” já eram conhecidos vários séculos antes de Cristo e foi Arateus da Capadócia, que no século I depois de Cristo celebrizou-se por ter descrito acuradamente a mania e a melancolia. Ele foi o primeiro autor a estabelecer um vínculo entre a mania e a melancolia e concebeu esses dois polos como aspectos diferentes da mesma doença. Os principais textos referentes à doença maníaco-depressiva que chegaram aos dias atuais foram escritos por ele (AKISKAL, 1996 apud DEL-PORTO; DEL-PORTO; GRINBERG, 2010).

Na França, por volta da metade do século XIX, Falret descreveu o que ele chamou de folie circulaire (loucura circular) e Baillarger de folie à double forme (loucura de dupla forma) que eram formas alternantes de mania e depressão. O conceito de Falret diferia do de Baillager por considerar os “intervalos lúcidos” entre as fases. Baillarger não levava em conta os interlavos entre a mania e a depressão, considerava apenas as fases onde mania e depressão se sucediam imediatamente (ANGST, 1986; MARNEROS, 2001 apud DEL-PORTO; DEL-PORTO; GRINBERG, 2010).

Os conceitos franceses de folie circulaire e folie à double forme alançaram rapidamente países como Alemanha e outros países de língua alemã. Kahlbaum apoiou Falret e seus intervalos lúcidos entre a mania e a depressão. Falret foi influenciado pelas ideias de Griesinger publicadas em 1845, onde afirmava que a mudança da melancolia para a mania era “usual” (ANGST, 1986; MARNEROS, 2001 apud DEL-PORTO; DEL-PORTO; GRINBERG, 2010).

Apesar de todas as contribuições de Falret, Baillarger e Kahlbaum, entre outros, a maioria dos clínicos ainda considerava mania e melancolia como formas distintas de doenças crônicas com curso deteriorante (GOODWIN; JAMISON, 1990 apud DEL-PORTO; DEL-PORTO; GRINBERG, 2010).

Todas essas descobertas e conceitos abriram caminho para a grande síntese proposta por Kraepelin no final do século XIX. É justamente de Kraepelin o termo psicose maníaco-depressiva que designava estados de humor onde havia crises de profunda tristeza e desânimo, baixa de atividade, falta de interesse pelas coisas, pensamentos de morte alternados com estados de euforia sem motivo aparente, além de agitação psicomotora ou hiperatividade, pensamento rápido, ideação delirante de grandeza ou persecutória e agressividade (DUNNINGHAM; GARCIA; AGUIAR, 1999).

Kraepelin dividia a enfermidade maníaco-depressiva em numerosos e complexos subtipos. Entretanto, na sexta edição de seu tratado (1899), Kraepelin considerou que a enfermidade maníaco-depressiva abrangia os estados depressivos, a mania simples e os quadros circulares (SALVATORE et al., 2002 apud DEL-PORTO; DEL-PORTO; GRINBERG, 2010).

Uma das grandes contribuições de Kraepelin e seu discípulo Weigandt foi o conceito de estados mistos, mas não com a importância dada por Kraepelin e Weigandt. Foram eles que melhor sistematizaram o estudo dos estados mistos (DEL-PORTO; DEL-PORTO; GRINBERG, 2010).

Weigandt estudou três estados mistos que tinham mais importância clínica: a de depressão agitada, a mania improdutiva e o estupor maníaco. Ele não apenas considerava os estados mistos como forma de transição da mania para a depressão ou vice-versa, mas também como estados que poderiam começar e terminar com características mistas, muitas vezes de duração prolongada (DEL-PORTO; DEL-PORTO; GRINBERG, 2010).

Kurt Schneider dizia não acreditar em estados mistos e que o que ocorria consistia na mudança de um estado para outro, o qual ele chamou de ciclotimia. Por outro lado, Karl Leonhard caracterizava as formas bipolares como polimorfas e chamava as formas monopolares de “puras” (DEL-PORTO; DEL-PORTO; GRINBERG, 2010). Foi na década de 30 do século XX que ele dividiu a “loucura maníaco-depressiva” em duas doenças distintas: uma delas onde haveria vários episódios depressivos na vida do sujeito e a outra episódios maníacos associados a episódios depressivos (DUNNINGHAN; GARCIA; AGUIAR, 1999).

Desde Kraepelin a contribuição mais importante para compreender os estados mistos foi feita por Hagop Akiskal. Ele afirmava que os estados mistos emergem quando um episódio afetivo ocorre sobre um temperamento de polaridade oposta, por exemplo: um episódio depressivo ocorrendo em uma pessoa com temperamento hipertímico ou um episódio maníaco ocorrendo em uma pessoa com temperamento depressivo. Akiskal formulou três diferentes estados mistos onde os diferentes sintomas afetivos se mesclam com o temperamento de base: (a) temperamento depressivo + episódio maníaco; (b) temperamento ciclotímico + depressão maior; (c) temperamento hipertímico + depressão maior (KAPCZINSKI; QUEVEDO, 2016).

De acordo com Akiskal e Pinto (1999 apud LARA, 2009) o espectro bipolar abrange cinco tipos de bipolaridade: tipo I, que apresenta toda a amplitude de variação de humor do pico mais alto (mania plena) até depressões graves. É comum apresentar sintomas psicóticos, como delírios ou alucinações; tipo II, que apresenta fase maníaca mais branda e curta, chamada hipomania. Os sintomas não prejudicam a pessoa de forma significativa. As depressões, entretanto, podem ser profundas; tipo III, que apresenta fase maníaca ou hipomaníaca induzida por um antidepressivo ou psicoestimulante, ou seja, o polo positivo só é descoberto pelo uso dessas drogas. Sem o antidepressivo costumam manifestar características do temperamento hipertímico ou ciclotímico; tipo IV, que não apresenta mania ou hipomania, mas tem um histórico de humor um pouco mais vibrante, na faixa hipertímica que frequentemente gera vantagens. Ciclotimia que não chega ao extremo de mania ou depressão, mas pode se manifestar mais tarde de forma mista e ansiosa.

OS TEMPERAMENTOS NO TAB

Os transtornos de humor são compatíveis com os temperamentos das pessoas. O temperamento é de natureza emocional e é herdado geneticamente. O caráter é construído pelas vivências. A combinação do temperamento com o caráter é que forma a personalidade. O tipo de temperamento que uma pessoa possui é o alicerce do seu humor e os possíveis transtornos de humor que uma pessoa venha a ter são compatíveis com seu temperamento (LARA, 2009).

Os temperamentos podem ser entendidos como padrões predominantes de humor ou “estilos afetivos”. São classificados como temperamentos hipertímicos, depressivos, ciclotímicos e irritáveis. No hipertímico, manifesta-se o dinamismo, a busca de sensações prazerosas, impulsividade, otimismo, entusiamo, extravagância; tem potencial, carisma e é muito criativo. No depressivo ocorre a preocupação, o pessimismo, a passividade, a cautela, a timidez e a indecisão. No ciclotímico ocorre a alternância de estados de humor de autoconfiança, altos e baixos, estados energéticos e apáticos, humor brincalhão e tristonho, alternância de introversão e expansividade e de sonolência com pouca necessidade de sono. Já no irritável, as pessoas manifestam a irritabilidade como uma característica marcante e constante. Essas pessoas irritáveis podem ser ameaçadoras, desconfiadas e destrutivas (AKISKAL, 1999 apud LARA, 2009).

Já no tempo de Hipócrates os temperamentos eram classificados por ele como colérico, sanguíneo, fleumático e melancólico e eram baseados em líquidos ou “humores” biológicos. Na astrologia os elementos da natureza são usados para definir os temperamentos. São eles: fogo, ar, terra e água. O psicólogo Kagan descreve os quatro temperamentos como: otimismo, ousadia, timidez e melancolia. Em todos os modelos com quatro elementos, os dois primeiros são mais expansivos, ativos, extrovertidos e dramáticos. Já os outros dois são mais introspectivos, passivos e obsessivos (LARA, 2009).

Um tratamento que vem tendo bastante eficácia em pacientes com transtorno de humor é o da Terapia Cognitivo-Comportamental que será descrita a seguir neste artigo.

O TAB, A TERAPIA COGNITIVO-COMPORTAMENTAL E SUA EFICÁCIA NESTE TRANSTORNO

O transtorno bipolar, antigamente conhecido como maníaco-depressivo, não é um transtorno homogêneo. Ele é parte de um conjunto afetivo que inclui maior ou menor grau de: agitação, euforia, grandiosidade, impulsividade, irritabilidade, aceleração da linguagem e do pensamento, estímulo aos comportamentos adictivos e hedonistas (JURUENA, 2004).

Mesmo diante das inúmeras investigações já existentes no meio acadêmico ao longo das últimas décadas, a etiologia e a fisiopatologia do transtorno bipolar, ainda são, em grande parte, desconhecidas. Há três fatores que causam o transtorno bipolar. O primeiro é o fator biológico onde ocorre a diminuição da atividade serotoninergética central e o aumento da função noradrenergética. Estudos sugerem que isso pode estar envolvido na gênese da mania. Além disso, pesquisas recentes sugerem que ocorrem alterações funcionais e neuroquímicas no cérebro do paciente bipolar. O segundo fator é o genético. Certos genes, ou combinações de genes, podem, eventualmente, causar uma suscetibilidade aumentada para o desenvolvimento do transtorno. Finalmente, os transtornos psicossociais também influenciam no aparecimento do transtorno. Traumas cerebrais precoces intrauterinos, neonatais ou precocemente na infância, privações alimentares, infecções virais, maus tratos e abuso físico ou sexual na infância podem causar alterações permanentes, desencadeando o aparecimento do transtorno do humor (ABREU; SALZANO; VASQUES; CANGELLI FILHO & CORDAS, 2006).

No transtorno bipolar os episódios de mania e depressão ocorrem de forma delimitada no tempo e entre tais episódios há períodos de remissão, onde o humor do paciente encontra-se eutímico e as alterações psicopatológicas mais intensas regridem (DALGALARRONDO, 2008).

Justamente por ter fases eutímicas, pacientes bipolares precisam não somente de tratamento farmacológico, mas também de tratamento psicológico. A literatura vem registrando relatos de como a Terapia Cognitiva (TC) vem ajudando pacientes com transtorno afetivo bipolar, ajudando-os a compreender suas questões subjetivas e a modularem o estresse (BECK, 1979 apud JURUENA, 2004). Ademais, a terapia cognitiva também ajuda os pacientes bipolares a fortalecerem sua autoestima e a diminuírem a oscilação do afeto em relação aos eventos do dia a dia (JACOBS, 1982 apud JURUENA, 2004).

A terapia cognitiva, além de reduzir o estresse em pacientes com transtorno afetivo bipolar, também aumenta a aderência à psicofarmacoterapia e desenvolve habilidades para prevenir recaídas. Juruena (2004, p. 317) afirma que: “A TC pode ser útil em melhorar a qualidade de vida e de funcionamento do indivíduo com TAB, ajudando no reconhecimento precoce dos sintomas e diminuindo as recaídas e a sintomatologia maníaco depressiva”. A probabilidade de acontecer novos episódios de mania ou depressão normalmente aumenta a cada episódio subsequente, apesar do tratamento (GELENBERG et al., 1989 apud JURUENA, 2004).

O tratamento farmacológico ao longo da vida do paciente bipolar é indicado. A farmacoterapia de manutenção normalmente não elimina completamente a ocorrência de mania ou depressão. Entretanto, diminui a frequência, a duração e a gravidade dos episódios maníacos ou depressivos, reduzindo o sofrimento do paciente, a hospitalização e o custo, melhorando, assim, seu funcionamento psicossocial (BAASTRUP; SCHOU, 1967 apud JURUENA, 2004).

A abordagem da terapia cognitiva se baseia em muitas suposições subjacentes. A primeira delas é a de que os pensamentos, os sentimentos e os comportamentos dos pacientes estão extremamente conectados e cada um influencia o outro. Mudanças de humor e alternância entre mania e depressão, inevitavelmente influenciam o comportamento (JURUENA, 2004). “O problema é que, quando o humor não está bom, o pensamento também vai para o extremo do negativo e o impacto emocional pode ser muito pesado” (LARA, 2009, p. 69). O sofrimento faz com que o pensamento fique mais negativo, criando um ciclo vicioso entre os pensamentos e as emoções (LARA, 2009). A segunda suposição subjacente da TC para o transtorno afetivo bipolar é a de que pacientes que compreendem o que significa seu transtorno estão mais aptos a desenvolver papeis mais ativos e tomar decisões mais informadas sobre seus tratamentos.

A terceira suposição é a de que a identificação precoce de sinais da chegada da mania ou depressão fornece uma oportunidade para uma intervenção precoce dando tempo de conter os sintomas. A quarta é a de que a aplicação de intervenções cognitivas expande o arsenal do paciente contra as recaídas. A quinta é a de que o aumento da aderência à medicação faz com que os pacientes recebam um benefício máximo do tratamento. A TC é de pouco serventia caso a farmacoterapia falhe com os pacientes bipolares. A sexta suposição é a de que manejar melhor os problemas psicossociais que trazem estresse aos pacientes e exacerbam seus sintomas pode ser muito eficaz na prevenção das recaídas ou de recorrências de depressão e de mania. A sétima é a de que a abordagem da TC foca no ensinamento da habilidade de saber lidar com os sintomas e com as consequências do transtorno bipolar. Isso quer dizer que nem todos os problemas podem ser solucionados nas sessões de terapia. Em vez disso, os problemas aparecem como facilitadores do ensinamento das técnicas de TC. Tudo isso ajuda o paciente a enfrentar os sintomas e os problemas entre as sessões. A terapia, desta forma, deixa de ser apenas uma série de visitas para intervenções de crises (JURUENA, 2004).

No transtorno bipolar, o paciente tratado com a terapia cognitivo-comportamental não está na fase aguda da doença. A TC é um trabalho em equipe onde paciente e terapeuta interagem para a melhora dos sintomas do paciente. O cliente e o terapeuta decidem juntos o que será feito em cada sessão, com que frequência serão os encontros e como o paciente deve realizar os exercícios de casa (LOTUFO NETO; YACUBIAN; SCALCO; GONÇALVES, 2001). Vale ressaltar que:

As sessões de terapia cognitiva seguem um padrão bem estruturado, no qual o terapeuta utiliza um roteiro objetivo para conduzir esse verdadeiro processo educativo, com a intenção final de tornar a pessoa seu próprio terapeuta, de modo a minimizar o risco de recaídas

A proposta do modelo cognitivo propõe que as emoções e comportamentos das pessoas advêm das percepções que elas têm da interpretação da realidade que vivenciam. O terapeuta apreende esse fenômeno através de um primeiro nível de pensamento denominado “pensamentos automáticos”. Esses pensamentos ocorrem num nível mais superficial e óbvio do pensamento e acabam por influenciar no humor e no comportamento do paciente. Esses pensamentos são muito breves e o paciente consegue identificar a emoção que eles causam. Identificar, avaliar e responder a pensamentos automáticos acaba produzindo uma mudança positiva nos sentimentos e esse é o primeiro trabalho desenvolvido durante o tratamento (LOTUFO NETO et al., 2001).

A terapia cognitivo-comportamental empregada para tratar o transtorno afetivo bipolar ocorre, geralmente, quando o paciente não está na fase aguda da doença. Ela trabalha com o diálogo socrático, entretanto, também tem o seu lado didático. A agenda das sessões segue o protocolo para o tratamento do TAB com a finalidade de ensinar algumas técnicas de forma gradual. A aliança terapêutica é muito importante e no TAB é difícil de ser mantida, pois, como os sintomas flutuam, as intervenções podem não surtir o efeito esperado, o futuro torna-se incerto e o paciente está, na maioria das vezes, irritado. Para fortalecer o vínculo terapêutico é necessário pedir a opinião do paciente sobre tudo que ocorrerá no setting terapêutico, ou seja, os planos de tratamento e as razões da aplicação das técnicas e os porquês de o terapeuta ter optado por esse tratamento (LOTUFO NETO et al., 2001).

A TC usa variadas técnicas para o tratamento do TAB. Dentre elas, o mapeamento de vida, onde o paciente identifica o curso da doença e como são suas fases de mania e depressão; a folha de resumo dos sintomas que conscientiza o paciente sobre suas flutuações do humor, permitindo ao mesmo detectar possíveis recaídas; gráfico do humor que ajuda o paciente a aguçar sua percepção para as mudanças diárias de humor e afetivograma, onde o terapeuta preenche qual estado de humor o paciente apresenta na sessão (LOTUFO NETO et al., 2001).

Além das técnicas citadas anteriormente, uma que aparece como muito importante é a psicoeducação, onde o paciente é instruído detalhadamente sobre seu transtorno, tratamento, aderência medicamentosa, para que o mesmo aumente as habilidades no manejo da doença e o compromisso com o acompanhamento psiquiátrico e psicoterapêutico para que essa atitude produza uma diminuição na duração e intensidade dos episódios maníacos ou depressivos e nas hospitalizações, prevenindo, assim, as recaídas (DEL-PORTO; DEL-PORTO; GRINBERG, 2010).

A PSICOEDUCAÇÃO E SEU USO NO TAB

A psicoeducação é considerada uma “abordagem” psicoterápica (MENEZES; SOUZA, 2012) que pode ser usada por médicos que tratam de doenças físicas e psicoterapeutas que tratam de doenças mentais (LEMES; ONDERE NETO, 2017). A psicoeducação foi desenvolvida a partir da década de 1970 como um tratamento adicional ao tratamento farmacológico em pacientes psiquiátricos. Ela é considerada uma das principais estratégias para a modificação de aspectos negativos que os portadores de TAB e seus familiares têm de sua doença (MENEZES; SOUZA, 2012).

A psicoeducação não é uma intervenção privativa e originada da terapia cognitivo-comportamental. Ela é uma abordagem independente que é usada pela TCC, normalmente, como sua fase introdutória, fornecendo aos pacientes informações sobre a natureza de seu transtorno e seu tratamento (JONES, 2004 apud MATTA et al., 2010).

A psicoeducação é uma técnica usada na prática clínica onde o profissional de saúde, médico ou psicólogo, informa ao paciente sobre os sintomas, a etiologia e o curso da doença, objetivando aumentar o conhecimento do paciente em relação a sua enfermidade visando também uma mudança de comportamento do paciente em relação a sua doença (GLICK, 1994 apud ANDRADE, 1999).

Miklowitz (1997 apud ANDRADE, 1999), grande expoente no trabalho com familiares de bipolares, caracteriza a psicoeducação como uma forma de “educação psicológica”. Ele define a psicoeducação como uma forma de informar o paciente sobre a doença e de como lidar com a mesma, além de lidar com o significado emocional das informações que o psicólogo compartilhou com o paciente.

Os objetivos da psicoeducação envolvem: fornecer informações aos pacientes e à família sobre a doença e seu tratamento, propiciando ensinamentos teóricos e práticos para que possam compreender e lidar melhor com o transtorno, melhorando o insight dos pacientes em relação à doença, fazendo com que lidem melhor com a estigmatização, melhorando a adesão ao tratamento. O psicoterapeuta também ensina os sinais pandrômicos precoces, promovendo hábitos saudáveis, uma regularidade no estilo de vida e uma evitação no abuso de substâncias (MENEZES; SOUZA, 2012).

A psicoeducação pode ser entendida como um fluxo de informações sobre o transtorno que tem um caminho de mão dupla, ou seja, as informações fluem do terapeuta para o paciente e vice-versa (CALLAHAM; BAUER, 1999 apud FIGUEIREDO et al., 2009). “Ela é parte fundamental de praticamente todos os protocolos para tratamento de transtorno bipolar na modalidade de terapia cognitivo-comportamental” (FIGUEIREDO et al., 2009, p. 17).

A psicoeducação deve ser empregada no paciente bipolar eutímico, preferencialmente, certamente no paciente medicado. Os pacientes depressivos tendem a reter apenas os aspectos negativos da informação fornecida pela psicoeducação, além de ter dificuldades cognitivas que prejudicam os processos de aprendizagem necessários para se psicoeducar. Já os pacientes maníacos tendem a ser destrutivos e não absorvem muita coisa das informações devido a sua distraibilidade e outros distúrbios cognitivos (COLOM; VIETA, 2004). Nessa perspectiva compreende-se que:

O modelo psicoeducacional envolve diferentes teorias psicológicas e educativas, além disso, utiliza dados teóricos de outras disciplinas como a educação, a filosofia, a medicina, entre outras, com o intuito de ampliar o fornecimento de informações ao paciente para que obtenha um entendimento não fragmentado acerca de seu diagnóstico

É importante salientar que a função da abordagem psicoeducativa vai além da promoção e ampliação do conhecimento em relação à doença e seu tratamento. De acordo com Andrade (1999, apud DEL-PORTO; DEL-PORTO; GRINBERG, 2010, p. 631), “trata-se de ajudar o paciente a compreender e dar sentido à experiência vivida e engajá-lo no uso desta compreensão em seus cotidianos, valorizando a vida e preocupando-se com ela”.

Poucos médicos discordam de que a educação dos pacientes sobre suas doenças seja importante; apesar disso, pacientes psiquiátricos nem sempre recebem informações adequadas sobre seus transtornos e o tipo de tratamento em que estão engajados. Sintomas como falta de concentração, pensamentos rápidos, distraibilidade e ansiedade podem reduzir a compreensão do paciente em relação ao seu transtorno, além de diminuir, também, a capacidade de retenção de informação. Clínicos podem não ter tido tempo suficiente para educar os pacientes e jargões como “você teve uma virada hipomaníaca” ou “você pode ter uma recorrência de depressão maior” podem confundir o paciente. Os pacientes às vezes se lembram de um diagnóstico dado no passado, mas não compreendem o que ele significa. O pior é que os pacientes nem sempre pedem esclarecimentos por terem vergonha de transparecer que não entendem o que o médico está dizendo. Muitas vezes os profissionais de saúde falham em não fornecer informações adequadas porque pensam que o paciente não tem condições de entender, está desinteressado ou já foi informado sobre seu transtorno por outro profissional que o atendeu anteriormente (JURUENA, 2001).

CONCLUSÃO

O trabalho desenvolvido pelo profissional de psicologia, usando a técnica da psicoeducação na abordagem Cognitivo-Comportamental tem sido de grande importância, não apenas para pacientes que sofrem de transtorno afetivo bipolar, mas também para aqueles que apresentam outros transtornos.

É muito importante ressaltar que este artigo não tem a pretensão de discorrer sobre tudo que existe sobre o uso da psicoeducação no TAB. O objetivo deste trabalho é instigar as pessoas a procurarem ajuda do psicoterapeuta cognitivo-comportamental e fazer com que elas fiquem cada vez mais conscientes sobre o TAB.

A pessoa acometida de transtorno afetivo bipolar ou qualquer outro transtorno deve ser psicoeducada para assumir seu CID psiquiátrico e tomar as rédeas do seu tratamento, podendo, assim, prever possíveis recaídas. Ademais, os profissionais que lidam com pacientes psiquiátricos, sejam eles psiquiatras ou psicólogos, devem instruir seus pacientes sobre seus transtornos e não omitir a verdade com medo da reação dos mesmos. Quando a pessoa se conscientiza sobre seu transtorno ela se torna responsável por seu tratamento, aderindo melhor ao tratamento farmacológico e psicológico.

A psicoeducação é uma técnica muito importante para os pacientes acometidos de transtorno afetivo bipolar e sua eficácia já foi demonstrada em estudos já presentes na literatura científica. Entretanto, a pesquisa deve prosseguir, pois estudos relacionados ao TAB são ainda comparativamente novos. Assim sendo, novas pesquisas sobre psicoeducação são esperadas e devem ser incentivadas para que cada vez mais novos detalhes sobre o TAB sejam desvendados.

REFERÊNCIAS

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