Por que você sempre escolhe o mesmo tipo de pessoa — e termina machucado?

Você muda de relacionamento. A pessoa é outra. A história começa de um jeito diferente.

Mas, depois de algum tempo, surge aquela sensação desconfortável: “Como eu vim parar aqui de novo?”

Mudam os nomes, os rostos e as circunstâncias. Mas você novamente está tentando conquistar alguém distante, esperando uma mensagem, lidando com ciúmes, tolerando frieza ou vivendo com medo de ser abandonado.

Na clínica, já acompanhei pessoas inteligentes, conscientes do que desejavam para a própria vida e que afirmavam querer um relacionamento saudável. Ainda assim, quando olhavam para trás, percebiam que algumas histórias pareciam se repetir.

Foi justamente sobre isso que conversei com o psicólogo Allessandro Canella, que foi o host da minha participação no podcast Psi com Dendê.

Em determinado momento, ele me perguntou:

“Por que repetimos relacionamentos tão parecidos, mesmo querendo fazer algo diferente?”

A resposta começa por uma ideia que considero importante: nós não escolhemos alguém apenas com a razão. Nossa história também participa da escolha.

Por que pessoas diferentes podem produzir histórias tão parecidas?

É comum ouvirmos alguém dizer:

“Eu só atraio pessoas erradas.”

“Todo mundo com quem me relaciono acaba fazendo a mesma coisa.”

“Parece que tenho dedo podre para relacionamento.”

Essas frases expressam uma frustração legítima. Mas talvez possamos fazer uma pergunta diferente:

Será que estamos apenas encontrando repetidamente determinado tipo de pessoa ou também existe algo que faz esse tipo de relação nos parecer especialmente atraente?

Jeffrey Young, um dos principais nomes da Terapia do Esquema, nos ajuda a compreender como experiências importantes da nossa história podem contribuir para a formação de padrões relacionados à maneira como percebemos a nós mesmos, as outras pessoas e nossos vínculos.

Isso não significa que estamos condenados a repetir a infância nem que alguém seja responsável pelo comportamento inadequado de um parceiro.

Significa reconhecer que aquilo que é emocionalmente familiar pode exercer uma influência importante sobre nossas escolhas — mesmo quando não é necessariamente saudável.

No podcast, usei uma analogia para explicar isso:

“É como entrar sempre na mesma estrada porque ela é conhecida, mesmo sabendo onde ela termina.”

E talvez seja justamente aí que algumas histórias comecem a se repetir.

Química intensa não é sinônimo de compatibilidade

Essa é uma distinção importante.

Conhecemos alguém e sentimos algo muito forte.

Pensamos naquela pessoa durante o dia. Esperamos a próxima mensagem. Queremos encontrá-la novamente. Ficamos atentos a qualquer mudança na forma como ela se comunica conosco.

Então concluímos:

“Existe muita química entre nós.”

Pode existir.

Mas intensidade emocional, por si só, não nos informa se aquele vínculo será saudável.

Às vezes, parte dessa intensidade está relacionada à novidade. Em outras situações, à imprevisibilidade ou à ativação de medos antigos, como rejeição e abandono.

Imagine alguém que demonstra muito interesse em você e, pouco depois, desaparece.

Quando você começa a desistir, ela reaparece.

Você se sente novamente importante.

Então ela se afasta outra vez.

Nesse movimento de aproximação e distanciamento, a atenção recebida pode adquirir um valor emocional enorme.

Você passa a esperar o próximo momento em que será procurado.

E pode surgir uma dinâmica perigosa: quanto menos o outro entrega, mais você tenta conquistar.

“Então eu sou o problema?”

Não.

E considero importante fazer essa distinção porque olhar para nossos próprios padrões não significa assumir a culpa pelo comportamento de outras pessoas.

Se alguém mentiu, traiu, manipulou, desrespeitou seus limites ou agiu de maneira inadequada, compreender seus padrões não transfere para você a responsabilidade por essas escolhas.

O que podemos investigar é outra coisa:

Por que permaneci? O que me atraía? O que eu esperava finalmente conseguir naquela relação?

Durante nossa conversa no Psi com Dendê, Allessandro trouxe outra questão:

“Então aquela sensação de ‘eu sempre atraio pessoas erradas’ pode esconder outra pergunta?”

Pode.

E talvez essa pergunta seja:

“O que em mim reconhece esse padrão como familiar?”

Essa mudança de perspectiva é importante porque nos tira de uma explicação baseada exclusivamente no azar e abre espaço para o autoconhecimento.

Quando conquistar alguém parece provar o nosso valor

Pense em alguém com um medo muito intenso de abandono.

Encontrar uma pessoa emocionalmente indisponível pode criar uma dinâmica particularmente difícil.

Quando o outro se aproxima, existe alívio.

Quando se afasta, surge insegurança.

Então começa uma tentativa de recuperar aquela proximidade.

Mais mensagens.

Mais concessões.

Mais esforço.

Mais tolerância.

Em algum momento, conquistar aquela pessoa pode deixar de significar apenas “quero ficar com ela” e passar a carregar silenciosamente outro significado:

“Se ela me escolher, talvez isso prove que eu tenho valor.”

E aqui mora uma armadilha importante.

Quanto mais difícil se torna receber afeto, mais valioso ele pode parecer.

Não porque alguém conscientemente queira sofrer, mas porque aquela dinâmica pode conversar com crenças e experiências construídas muito antes daquele relacionamento começar.

O que acontece quando alguém realmente está disponível?

Existe uma pergunta que pode ser bastante reveladora:

Como você reage quando encontra alguém emocionalmente disponível?

Você sente segurança?

Ou perde rapidamente o interesse?

Aquilo que é tranquilo parece sem graça?

Você precisa sentir que existe algo a ser conquistado para acreditar que está apaixonado?

Não existem respostas universais para essas perguntas. Mas elas podem nos ajudar a observar uma diferença essencial:

familiaridade emocional e vínculo saudável não são necessariamente a mesma coisa.

Às vezes, passamos tanto tempo associando amor à espera, insegurança, conquista ou medo de perder que uma relação mais estável pode inicialmente parecer estranha.

Olhe menos para quem você escolheu e mais para o padrão

Uma forma interessante de refletir sobre sua história afetiva é olhar para os relacionamentos anteriores sem analisar apenas as características das pessoas.

Observe também quem você se tornava dentro dessas relações.

Você era sempre quem corria atrás?

Quem precisava provar alguma coisa?

Quem tinha medo de dizer não?

Quem aceitava menos do que gostaria para evitar perder o relacionamento?

Quem permanecia esperando que a pessoa finalmente mudasse?

Quem confundia intensidade com intimidade?

Quando observamos apenas cada relacionamento isoladamente, podemos enxergar várias histórias que deram errado.

Quando colocamos essas histórias lado a lado, talvez comecemos a perceber um padrão.

E perceber um padrão não significa encontrar um culpado.

Significa tornar visível aquilo que, até então, acontecia quase automaticamente.

Talvez não seja apenas azar

No encerramento da minha conversa com o psicólogo Allessandro Canella no Psi com Dendê, chegamos justamente a essa provocação:

“Talvez o problema não seja amar demais. Talvez seja amar sempre o mesmo padrão.”

É claro que nem toda frustração amorosa representa a repetição de um esquema. Relacionamentos terminam por inúmeras razões, pessoas podem ser incompatíveis e nem toda escolha precisa esconder uma explicação psicológica profunda.

Mas, quando a sensação de “estou vivendo isso outra vez” aparece repetidamente, talvez mereça nossa atenção.

Porque compreender nossos padrões não significa deixar de acreditar no amor.

Pode significar começar a distinguir aquilo que realmente desejamos daquilo que simplesmente aprendemos a reconhecer como familiar.

Por isso, termino este artigo com a mesma reflexão que deixei durante minha participação no podcast:

Quando você olha para seus relacionamentos anteriores, qual padrão mais se repetiu? Frieza? Abandono? Ciúme? Traição? Indisponibilidade emocional?

E talvez exista uma pergunta ainda mais importante:

O que fez esse padrão parecer amor para você tantas vezes?

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