Nem toda falta de atenção é TDAH: por que entender a origem dos sintomas é mais importante do que buscar um rótulo

Vivemos na era dos autodiagnóstico

Nunca se falou tanto sobre saúde mental.

Isso é positivo.

Hoje, mais pessoas procuram ajuda, compartilham experiências e compreendem que sofrimento emocional merece atenção.

Mas essa evolução trouxe também um desafio.

A velocidade com que passamos a nomear comportamentos.

Basta esquecer um compromisso e alguém comenta:

“Você deve ter TDAH.”

Uma dificuldade para manter o foco durante uma reunião parece suficiente para despertar suspeitas.

E, aos poucos, algo muito complexo começa a ser resumido em um único rótulo.

A questão é que nosso cérebro merece mais cuidado do que conclusões apressadas.

Nem toda distração significa um transtorno

Todos nós perdemos a concentração.

Todos esquecemos onde colocamos as chaves.

Todos temos dias em que parece impossível organizar as ideias.

Isso faz parte da experiência humana.

O problema começa quando acreditamos que qualquer dificuldade de atenção precisa ter uma explicação diagnóstica.

Na prática clínica, aprendi que sintomas parecidos podem nascer de causas completamente diferentes.

Poucas horas de sono.

Sobrecarga no trabalho.

Ansiedade.

Estresse crônico.

Uso excessivo de telas.

Luto.

Depressão.

Tudo isso pode afetar significativamente nossa capacidade de atenção.

E é justamente por isso que olhar apenas para o sintoma nunca é suficiente.

Uma metáfora que costumo usar

Durante minha conversa com Helena Gouvêa, no podcast do Psi com Dendê, compartilhei uma imagem que ajuda a compreender essa diferença.

“Imagine tentar dirigir um carro com o pára-brisa completamente embaçado. Você enxerga mal, erra o caminho e demora para reagir. Mas o problema não está no motorista. Está naquilo que está atrapalhando a visão. Com o nosso cérebro acontece algo parecido.”

Essa metáfora resume algo importante.

Às vezes, a dificuldade de concentração não acontece porque existe um transtorno nas funções de atenção.

Ela acontece porque existe algo interferindo no funcionamento do cérebro naquele momento.

Limpar o para-brisa é diferente de trocar o motor.

E descobrir esse detalhe faz toda a diferença no cuidado.

O diagnóstico existe para compreender, não para definir pessoas

Existe uma tendência natural de buscar respostas rápidas.

Dar um nome ao que sentimos pode trazer alívio.

Mas um diagnóstico psicológico ou psiquiátrico não deve funcionar como um rótulo.

Ele deve funcionar como um mapa.

Um bom mapa não diz quem você é.

Ele mostra qual caminho seguir.

Quando falamos em Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), estamos nos referindo a um transtorno do neurodesenvolvimento que envolve dificuldades persistentes em funções executivas, como planejamento, organização, controle inibitório e gerenciamento do tempo.

Isso é muito diferente de viver períodos de desatenção provocados pelo contexto de vida.

O que Russell Barkley nos ensina

Entre os pesquisadores que mais contribuíram para a compreensão do TDAH está Russell Barkley.

Ao longo de décadas de pesquisa, ele mostrou que o transtorno vai muito além da distração.

Seu impacto aparece especialmente nas chamadas funções executivas.

São elas que nos ajudam a:

  • organizar tarefas;
  • controlar impulsos;
  • administrar o tempo;
  • manter objetivos de longo prazo;
  • regular comportamentos.

 

Por isso, avaliar apenas a dificuldade de concentração é insuficiente.

É preciso compreender como esses sintomas aparecem ao longo da vida, em diferentes contextos e com qual intensidade interferem no funcionamento da pessoa.

O risco dos rótulos

Existe outro efeito pouco discutido.

Quando transformamos diagnósticos em expressões do cotidiano, acabamos banalizando experiências muito sérias.

Dizer:

“Hoje estou TDAH.”

Pode parecer apenas uma brincadeira.

Mas, sem perceber, reforçamos ideias equivocadas sobre quem convive diariamente com esse transtorno.

Além disso, corremos outro risco.

Ignorar causas importantes para os sintomas.

Às vezes, a pessoa não precisa de um diagnóstico.

Precisa dormir melhor.

Reduzir a sobrecarga.

Tratar a ansiedade.

Organizar sua rotina.

Ou simplesmente desacelerar.

A atenção também sofre com o excesso

Vivemos em uma época que exige atenção o tempo inteiro.

Mensagens.

Notificações.

Vídeos curtos.

Mudanças constantes de foco.

Nosso cérebro raramente permanece em uma única tarefa por muito tempo.

Isso não significa que desenvolvemos TDAH coletivamente.

Significa que estamos submetendo nossa atenção a estímulos que ela nunca precisou administrar em outras gerações.

Talvez seja importante perguntar não apenas o que está acontecendo com nosso cérebro.

Mas também o que estamos fazendo com ele todos os dias.

O que disse no podcast continua sendo a pergunta mais importante

No encerramento da conversa com a psicóloga Helena Gouvea, deixei uma reflexão que resume tudo isso:

“Talvez a pergunta mais importante não seja: ‘Será que eu tenho TDAH?’ Mas sim: ‘O que meu cérebro está tentando me mostrar?'”

Gosto dessa pergunta porque ela muda completamente a direção da conversa.

Ela substitui o julgamento pela curiosidade.

Em vez de buscar um nome rapidamente, passamos a investigar a história por trás do sintoma.

E é justamente aí que começa um cuidado verdadeiramente individualizado.

Algumas perguntas para refletir

Antes de concluir que sua dificuldade de atenção significa um transtorno, talvez valha a pena observar:

  • Como está sua qualidade de sono?
  • Há quanto tempo você se sente sobrecarregado?
  • Como está seu nível de estresse?
  • Você consegue permanecer alguns minutos sem olhar para o celular?
  • Esses sintomas acompanham você desde a infância ou surgiram recentemente?


Responder a essas perguntas não substitui uma avaliação profissional.

Mas pode ajudar a compreender que o cérebro sempre está respondendo ao contexto em que vive.

Nem tudo o que aparece explica o que acontece.

Veja o iceberg, ele mostra apenas uma pequena parte, mas ao aprofundar se percebe que não é só aquilo. Assim acontece com os sintomas, abaixo dessa camada visível existem histórias, emoções, experiências, relações e contextos que influenciam o comportamento humano. Por isso, não é adequado transformá-los em rótulos. Realizar uma avaliação psicológica permite aprofundar esse olhar, investigando a origem e o significado dos sinais apresentados, com base em critérios científicos e na singularidade de cada pessoa. Nem todo sintoma indica uma condição patológica; muitas vezes, ele é um convite para compreender o que está oculto sob a superfície e promover um cuidado mais consciente e adequado.

Porque compreender a origem do sofrimento é muito mais importante do que apenas encontrar um nome para ele.

Referências

  • Barkley, R. A. Taking Charge of Adult ADHD. Guilford Press.
  • Barkley, R. A. Attention-Deficit Hyperactivity Disorder: A Handbook for Diagnosis and Treatment. Guilford Press.
  • American Psychiatric Association. DSM-5-TR – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). CID-11 – Classificação Internacional de Doenças.
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