Você não repete os mesmos comportamentos por acaso: a pergunta que pode mudar sua forma de enxergar a si mesmo

Talvez você esteja fazendo a pergunta errada

Todos nós já fizemos alguma promessa para nós mesmos.

“Segunda-feira eu começo.”

“Dessa vez vai ser diferente.”

“Nunca mais volto para essa situação.”

E, algum tempo depois, percebemos que estamos exatamente onde prometemos não voltar.

É comum concluir que faltou disciplina.

Que faltou força de vontade.

Que faltou coragem.

Mas e se nenhuma dessas explicações fosse suficiente?

Talvez a pergunta mais importante não seja:

“Por que eu continuo fazendo isso?”

Talvez seja outra.

“O que esse comportamento ainda está resolvendo para mim?”

Nem todo comportamento existe porque queremos

Imagine alguém que evita uma conversa importante.

O problema continua existindo.

Mas, naquele momento, ela sente um enorme alívio por não precisar enfrentar aquele desconforto.

No dia seguinte, evita novamente.

Depois, outra vez.

Sem perceber, seu cérebro aprende algo muito importante:

Fugir faz a ansiedade diminuir.

Esse pequeno alívio funciona como uma recompensa.

E aquilo que produz recompensa tende a se repetir.

É assim que muitos padrões se fortalecem.

Não porque sejam bons.

Mas porque, de alguma forma, continuam funcionando.

O cérebro aprende com consequências, não com promessas

Na Análise do Comportamento, entendemos que nossos comportamentos não acontecem por acaso.

Eles são influenciados pelas consequências que produzem.

Quando um comportamento reduz o medo, evita um conflito ou traz uma sensação imediata de alívio, aumentam as chances de ele acontecer novamente.

É por isso que mudar costuma ser muito mais difícil do que simplesmente decidir mudar.

Porque aquilo que queremos abandonar normalmente continua cumprindo alguma função importante.

Mesmo que essa função tenha um custo elevado no futuro.

Às vezes o problema não é o hábito

É a necessidade que ele atende.

Uma pessoa pode permanecer em um relacionamento que lhe faz mal.

Outra pode procrastinar constantemente.

Alguém pode evitar consultas médicas.

Outra pessoa pode responder com agressividade sempre que se sente criticada.

Os comportamentos são diferentes.

Mas a lógica pode ser parecida.

Todos oferecem algum tipo de benefício imediato.

Proteção.

Alívio.

Controle.

Segurança.

Enquanto essa necessidade continuar sendo atendida apenas daquela forma, abandonar o comportamento será muito mais difícil.

A força de vontade tem seus limites

Vivemos cercados por discursos motivacionais.

“Você consegue.”

“Basta querer.”

“Tenha disciplina.”

Essas mensagens podem inspirar.

Mas também podem gerar culpa quando a mudança não acontece.

A verdade é que força de vontade ajuda.

Mas raramente explica, sozinha, por que repetimos determinados padrões.

A mudança acontece com mais consistência quando compreendemos a função daquele comportamento e encontramos formas mais saudáveis de atender à mesma necessidade.

O que eu disse no podcast continua fazendo sentido

No episódio do Psi com Dendê, compartilhei uma ideia que resume bem essa reflexão:

“Na maioria das vezes, não é falta de força de vontade. É aprendizagem. E aquilo que foi aprendido também pode ser aprendido de outra maneira.”

Essa talvez seja uma das mensagens mais importantes da Psicologia.

Se um comportamento foi construído ao longo da vida, ele também pode ser transformado.

Não por meio da culpa.

Mas por meio da compreensão.

O comportamento sempre está tentando resolver alguma coisa

Essa é uma das perguntas que mais utilizo na clínica:

“O que esse comportamento faz por você?”

Não para justificar escolhas que causam sofrimento.

Mas para compreendê-las.

Quando entendemos a função de um comportamento, deixamos de lutar apenas contra o sintoma e começamos a cuidar daquilo que realmente o mantém.

É uma mudança de perspectiva.

E, muitas vezes, é também o primeiro passo para uma mudança mais duradoura.

Antes de tentar mudar, experimente observar

Na próxima vez que perceber um comportamento que gostaria de abandonar, talvez valha a pena interromper o julgamento por alguns instantes.

Em vez de pensar:

“Por que eu sou assim?”

Pergunte:

  • O que eu senti imediatamente antes desse comportamento?
  • Do que eu estava tentando me proteger?
  • O que ganhei ao agir dessa forma?
  • Existe outra maneira de atender essa mesma necessidade?

Essas perguntas não resolvem tudo.

Mas costumam abrir caminhos que a culpa nunca conseguiu abrir.

Mudar talvez seja menos sobre lutar e mais sobre compreender

Existe uma frase que gosto de repetir porque ela resume bem a forma como compreendo o comportamento humano:

“Todo comportamento acontece por um motivo.”

Isso não significa que todo comportamento seja saudável.

Nem que deva permanecer.

Significa apenas que, antes de tentar eliminá-lo, precisamos entender por que ele continua existindo.

Porque mudanças consistentes raramente começam com julgamento.

Elas começam com curiosidade.

E talvez a pergunta que transforme sua história não seja:

“Como faço para parar?”

Mas:

“O que eu realmente estou tentando resolver quando faço isso?”

Referências

  • Watson, J. B. (1980). Aprendizado verbal segundo o behaviorismo (C. T. Massadar, Trad.). Em W. S. Sahakian (Org.), Aprendizagem: sistemas, modelos e teorias (p. 21). Rio de Janeiro: Interamericana. (Trabalho original publicado em 1928)
  • Skinner, B. F. Ciência e Comportamento Humano. Martins Fontes.
  • Baum, W. M. Compreender o Behaviorismo: Comportamento, Cultura e Evolução. Artmed.
  • Sidman, M. Coerção e Suas Implicações. Livro Pleno.
  • Catania, A. C. Aprendizagem: Comportamento, Linguagem e Cognição. Artmed.
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