Por que fugir da ansiedade funciona — e por que justamente aí mora o problema

“Existe uma maneira de diminuir sua ansiedade em cinco minutos… e aumentá-la durante anos.”

Foi com essa provocação que começou uma das conversas do podcast Psi com Dendê.

A psicóloga Talita Romero colocou a questão:

“Você está dizendo que algo que faz a pessoa se sentir melhor agora pode justamente ajudar a manter a ansiedade depois?”

A resposta é sim.

E talvez esse seja um dos paradoxos mais interessantes para compreendermos quando falamos de ansiedade.

A pessoa cancela o compromisso que estava deixando-a ansiosa.

Desiste de dirigir.

Não apresenta o trabalho.

Adia a conversa difícil.

Evita aquela reunião.

Imediatamente sente alívio.

Se analisarmos apenas os minutos seguintes, a estratégia parece ter sido um sucesso.

Mas o comportamento humano não pode ser compreendido olhando apenas para aquilo que acontece imediatamente.

Precisamos perguntar também:

O que essa consequência está ensinando?

Quando o alívio reforça a fuga

Para estudantes e profissionais da Psicologia, o mecanismo é conhecido.

Reforçamento negativo.

Um comportamento aumenta sua probabilidade de ocorrer novamente porque sua consequência foi a retirada ou redução de um estímulo aversivo.

Na experiência cotidiana da ansiedade, podemos representá-lo assim:

Situação temida → aumento da ansiedade → evitação → redução da ansiedade.

O último elemento é fundamental.

A redução do desconforto funciona como uma consequência poderosa.

Na próxima oportunidade, evitar tende a parecer ainda mais atraente.

É importante observar que “negativo”, nesse conceito, não significa ruim. Refere-se à retirada de algo.

E o que foi retirado?

O desconforto.

Essa compreensão ajuda a abandonar uma leitura moralizante da evitação.

A pessoa não está simplesmente sendo “fraca”, “sem coragem” ou “sem força de vontade”.

Existe uma contingência bastante eficiente ensinando aquele organismo a repetir uma estratégia que funcionou.

Pelo menos no curto prazo.

O custo está naquilo que a pessoa deixa de aprender

A discussão contemporânea sobre ansiedade vai além da simples ideia de que a pessoa precisa permanecer na situação até “se acostumar”.

Um dos pontos fundamentais é a possibilidade de aprendizagem corretiva.

Quando alguém evita sistematicamente uma situação, previsões importantes deixam de ser testadas.

“Se eu apresentar o trabalho, vou travar.”

“Se eu dirigir sozinho, vou perder o controle.”

“Se eu disser não, essa pessoa vai me abandonar.”

“Se eu sentir meu coração acelerar, alguma coisa grave vai acontecer.”

Enquanto a situação for evitada, essas previsões permanecem relativamente protegidas da realidade.

A pessoa sabe o que imagina que aconteceria.

Mas não descobre necessariamente o que aconteceria.

A American Psychological Association destaca que a exposição pode ajudar justamente por permitir o confronto sistemático com situações temidas, favorecendo a revisão de previsões e o desenvolvimento de maior senso de capacidade para enfrentar a ansiedade.

Pesquisadores como Michelle Craske e colaboradores acrescentaram uma contribuição particularmente relevante a essa discussão ao enfatizar modelos de aprendizagem inibitória.

Sob essa perspectiva, o sucesso não precisa ser medido simplesmente pela pergunta:

“A ansiedade caiu durante a exposição?”

Uma pergunta potencialmente mais interessante é:

“O que a pessoa aprendeu que contradiz ou amplia aquilo que esperava?”

“Eu fiquei ansioso e consegui”

Essa pequena frase contém uma mudança clínica importante.

Considere alguém que acredita:

“Se minha ansiedade chegar a oito, não vou suportar.”

Durante uma experiência planejada, sua ansiedade realmente chega a oito.

E não diminui imediatamente.

À primeira vista, poderíamos interpretar isso como fracasso.

Mas a pessoa permanece.

Conclui a tarefa.

Volta para casa.

No dia seguinte, existe uma nova informação disponível:

“Minha ansiedade chegou a oito e eu consegui continuar.”

O objetivo não foi provar que jamais sentiria ansiedade.

Foi construir uma experiência incompatível com a previsão de incapacidade absoluta.

Essa distinção tem consequências importantes para a clínica.

E quando a pessoa não evita?

Aqui surge outra camada do problema.

Nem toda evitação parece fuga.

Às vezes, o paciente está fisicamente presente, mas depende de determinados recursos para tolerar a situação.

Olhar constantemente o celular em uma festa.

Ensaiar mentalmente cada frase antes de falar.

Sentar sempre próximo à saída.

Levar alguém consigo para qualquer situação temida.

Verificar repetidamente o próprio corpo.

Buscar garantias constantes de outras pessoas.

São exemplos possíveis do que chamamos de comportamentos de segurança.

Eles não devem ser classificados automaticamente como inadequados. Sua função precisa ser compreendida dentro da formulação individual.

A pergunta clínica relevante é:

O que o paciente acredita que aconteceria se não utilizasse esse recurso?

É aí que frequentemente encontramos a ameaça percebida.

Evitação não é sinônimo de transtorno

Existe um cuidado ético importante nesta discussão.

Todos nós evitamos coisas.

E evitar pode ser extremamente adaptativo.

O comportamento só pode ser compreendido considerando contexto, função, frequência, intensidade e prejuízo.

Portanto, ler este artigo e perceber que você evita situações não permite concluir que possui um transtorno de ansiedade.

Da mesma forma, profissionais precisam evitar transformar qualquer estratégia de proteção em “comportamento patológico”.

A clínica exige formulação.

Exige história.

Exige contexto.

E exige compreender a função daquele comportamento para aquela pessoa.

Uma conversa entre professora e ex-aluno

Talvez por isso tenha sido particularmente interessante conversar sobre esse tema com Talita Romero, que, antes de ocupar a cadeira de host no Psi com Dendê, havia ocupado outro lugar na minha história: foi minha professora durante a graduação em Psicologia.

Anos depois, estávamos diante das câmeras discutindo justamente aprendizagem.

Em determinado momento, Talita perguntou:

“Então a pessoa pode acreditar que encontrou uma maneira de controlar a ansiedade quando, sem perceber, está fortalecendo o medo?”

Pode.

Mas existe uma segunda pergunta que considero ainda mais importante:

Como saber quando estamos diante de proteção legítima e quando o alívio começou a cobrar um preço alto demais?

Essa fronteira nem sempre é evidente.

No meu site pessoal, aprofundei justamente essa parte da discussão, trazendo situações da vida adulta e algumas perguntas que podem ajudar a perceber a diferença entre evitar um perigo real e evitar sistematicamente uma experiência emocional.

 

Para os psicólogos, fica também uma provocação

Talvez uma das perguntas mais interessantes diante da evitação não seja:

“Por que esse paciente não enfrenta?”

Mas:

“O que ele está conseguindo evitar sentir, pensar ou descobrir quando foge?”

Essa mudança aparentemente pequena tira o terapeuta de uma posição de julgamento e o aproxima de uma análise funcional e cognitiva mais cuidadosa.

Também permite investigar:

Qual é a previsão catastrófica?

Qual é a consequência imediata da evitação?

Que comportamento de segurança está presente?

Que aprendizagem está sendo impedida?

Que nova experiência poderia ser construída?

E, sobretudo:

Como fazer isso de maneira colaborativa, gradual e coerente com a formulação daquele paciente?

Porque exposição não é simplesmente colocar alguém diante do medo.

É criar condições para que novas aprendizagens sejam possíveis.

Nem todo alívio é solução

No final daquela conversa, Talita resumiu o dilema em uma pergunta:

“Então nem todo alívio significa que fizemos aquilo que era melhor para nós?”

Exatamente.

O alívio nos fornece uma informação:

algo desagradável diminuiu.

Mas não responde sozinho se a estratégia utilizada nos aproxima ou nos afasta daquilo que queremos construir.

É por isso que compreender a função do comportamento importa tanto.

Para pacientes.

Para psicólogos.

E para qualquer pessoa tentando compreender melhor a própria relação com a ansiedade.

Às vezes, aquilo que chamamos de proteção é justamente aquilo que mantém o medo vivo.

Referências para aprofundamento

American Psychological Association. What Is Exposure Therapy?

American Psychological Association. How psychologists help with anxiety disorders.

Craske, M. G., Treanor, M., Conway, C. C., Zbozinek, T., & Vervliet, B. (2014). Maximizing exposure therapy: An inhibitory learning approach. Behaviour Research and Therapy, 58, 10–23.

Craske, M. G. et al. Trabalhos sobre aprendizagem inibitória, evitação e otimização das intervenções baseadas em exposição.

Clark, D. M. Produção científica sobre modelos cognitivos da ansiedade e processos de manutenção.

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