A inteligência artificial generativa é uma tecnologia capaz de responder perguntas, resumir informações, produzir textos e conversar com as pessoas. Ela já faz parte da vida de milhões de usuários e também vem sendo cada vez mais utilizada na área da saúde mental. A Psicologia trabalha diretamente com a linguagem, a comunicação, a interpretação e a construção de significados. Por isso, a chegada da inteligência artificial traz novas possibilidades, mas também novos desafios para a profissão.
O uso da inteligência artificial na Psicologia não é algo totalmente novo. Sistemas de computador voltados para a área da saúde mental já eram estudados antes do surgimento dos atuais modelos de inteligência artificial generativa. A principal mudança é que, atualmente, esses sistemas conseguem produzir respostas mais personalizadas e manter conversas que se aproximam bastante de uma conversa humana.
Os estudos de Salah, Abdel Fattah e Al Halbusi (2024) mostram que a inteligência artificial generativa vem trazendo mudanças para a Psicologia, principalmente nas áreas de pesquisa, diagnóstico e tratamento. Porém, os autores destacam que os possíveis benefícios dessa tecnologia precisam ser analisados junto com seus riscos, suas limitações e, principalmente, suas questões éticas.
Por isso, é importante não perguntar apenas se a inteligência artificial pode ser utilizada na Psicologia. É necessário também discutir se esse uso é seguro, responsável e ético, principalmente quando envolve a saúde mental das pessoas.
Psicologia e inteligência artificial
De maneira geral, podemos entender a inteligência artificial como uma tecnologia capaz de realizar algumas tarefas que normalmente estão relacionadas à inteligência humana. Ela consegue processar informações, trabalhar com a linguagem e produzir respostas a partir dos dados com os quais foi desenvolvida.
A revisão sistemática realizada por Kolding et al. (2024) mostra que o uso da inteligência artificial na Psicologia e na saúde mental está crescendo rapidamente. Os pesquisadores encontraram 40 estudos sobre o uso da inteligência artificial generativa na saúde mental, incluindo as áreas de Psiquiatria e Psicologia. A maioria dos estudos analisados envolvia o Chat GPT.
No entanto, os pesquisadores destacam que muitos desses trabalhos ainda são estudos iniciais. Eles analisam principalmente as respostas produzidas pela inteligência artificial e ainda não conseguem responder a questões importantes sobre sua eficácia no atendimento em saúde mental.
Por esse motivo, é preciso ter cuidado para não tirar conclusões precipitadas. Uma resposta produzida pela inteligência artificial pode parecer correta e adequada, mas isso não significa que ela tenha sido comprovadamente eficaz para o tratamento psicológico.
Kolding et al. (2024) mostram que os modelos de inteligência artificial generativa apresentam resultados promissores em algumas áreas da saúde mental. Mesmo assim, ainda existem dúvidas sobre a qualidade das pesquisas, a segurança, as questões éticas e a verdadeira utilidade dessas ferramentas na prática clínica.
Dessa forma, a Psicologia precisa acompanhar o desenvolvimento da tecnologia, mas sem deixar de lado seu compromisso com a ciência e com as pesquisas que apresentam evidências confiáveis.
A utilização da IA na prática psicológica
A inteligência artificial pode ser uma ferramenta importante para a psicoeducação. Ela pode ajudar a explicar temas como depressão, ansiedade, habilidades sociais, pensamentos automáticos negativos e regulação emocional, entre outros assuntos relacionados à Psicologia.
A IA também pode ajudar o profissional de Psicologia a criar materiais de trabalho, organizar informações, sugerir perguntas para entrevistas e planejar conteúdos. Dessa maneira, algumas tarefas que antes exigiam mais tempo podem ser realizadas com maior rapidez. Mesmo assim, o profissional precisa sempre revisar o material produzido pela inteligência artificial antes de utilizá-lo.
Luxton (2026) discute o crescimento do uso da inteligência artificial na saúde mental. Entre suas possibilidades estão o apoio à tomada de decisões clínicas, a identificação de estados emocionais, a análise de informações relacionadas ao diagnóstico e possíveis prognósticos. Porém, é necessário considerar sempre a segurança, as limitações da tecnologia e a ética profissional.
A inteligência artificial também consegue analisar uma grande quantidade de informações e identificar padrões que podem ser difíceis de perceber em uma análise humana. Halder, Halder e Mahato (2025) discutem diferentes usos da IA na avaliação, na identificação e no acompanhamento de transtornos mentais, como ansiedade, transtornos de humor, esquizofrenia, problemas do neurodesenvolvimento e risco de suicídio.
É importante, porém, entender que identificar um padrão não é o mesmo que fazer um diagnóstico psicológico ou psiquiátrico. Cada pessoa possui uma história de vida, uma realidade social e cultural e características próprias que precisam ser consideradas na avaliação.
Por isso, a inteligência artificial pode ser uma ferramenta de apoio, mas não deve substituir o profissional capacitado para compreender e avaliar a complexidade de cada caso.
Psicoterapia e inteligência artificial
Desde que a inteligência artificial começou a ser utilizada na psicoterapia, muitas perguntas surgiram. Se a IA consegue conversar com uma pessoa e sugerir estratégias para lidar com problemas emocionais, será que ela poderia substituir o psicólogo?
A psicoterapia não é apenas a aplicação de técnicas ou uma conversa para transmitir informações. Ela envolve uma relação profissional, responsabilidade clínica, escuta qualificada, compreensão da história da pessoa e respeito aos princípios éticos.
Algumas técnicas da Terapia Cognitivo-Comportamental podem ser utilizadas pela inteligência artificial para ajudar uma pessoa a reconhecer pensamentos automáticos negativos, compreender determinados conceitos e refletir sobre suas emoções. Entretanto, isso não significa que a IA possa substituir o psicólogo ou o psiquiatra na avaliação e na compreensão de um caso clínico.
A relação terapêutica não consiste apenas em produzir textos ou oferecer respostas. Ela envolve a subjetividade tanto do paciente quanto do psicoterapeuta. É uma relação humana na qual o profissional precisa conhecer a história de vida da pessoa, seus medos, suas dúvidas e o contexto em que seus conflitos acontecem.
Blease e Rodman (2025) discutem o crescimento dos chatbots generativos e as questões éticas que surgem com seu uso. Entre essas questões estão a responsabilidade, a segurança, a privacidade e a autonomia.
Para esses autores, a discussão sobre a ética da inteligência artificial não deve acontecer somente depois que a tecnologia já estiver sendo utilizada. A preocupação ética precisa acompanhar o desenvolvimento e a utilização da tecnologia.
Esse é um ponto fundamental para pensar como o profissional de Psicologia pode utilizar a inteligência artificial sem deixar de lado o caráter humano e ético da Psicologia.
Riscos e desafios éticos
O uso da inteligência artificial na saúde mental também apresenta riscos importantes. Um dos principais é a possibilidade de a pessoa receber informações erradas. Os sistemas de inteligência artificial podem produzir respostas que parecem corretas e convincentes, mas que, na realidade, estão erradas.
Na área da saúde mental, isso pode ser especialmente perigoso. Uma pessoa pode interpretar seus sintomas de maneira equivocada ou receber uma orientação inadequada sobre seu tratamento. Por isso, é necessário ter muito cuidado quando a inteligência artificial é utilizada em situações relacionadas à saúde mental.
Outro ponto importante é a confidencialidade. Quando informações pessoais, relatos de casos ou dados de pessoas reais são inseridos em sistemas de inteligência artificial, existe uma preocupação com a proteção dessas informações.
Por esse motivo, a proteção dos dados deve ser uma preocupação constante. O profissional de Psicologia precisa ter muito cuidado ao utilizar ferramentas de inteligência artificial em sua prática profissional.
Kolding et al. (2024) destacam que as pesquisas sobre inteligência artificial generativa na saúde mental ainda são recentes. Os autores defendem a realização de mais estudos, com métodos mais rigorosos, maior transparência e participação de um número maior de usuários.
Assim, as pesquisas ainda precisam avançar para que seja possível compreender melhor os benefícios e os riscos dessa tecnologia.
Os benefícios da inteligência artificial precisam ser analisados junto com questões como segurança, autonomia e responsabilidade. Essa preocupação se torna ainda mais importante quando a tecnologia é utilizada como apoio ao cuidado psicológico (Blease e Rodman, 2025).
Também existe o risco de uma pessoa desenvolver uma dependência emocional da tecnologia. Alguém que esteja passando por sofrimento psicológico pode começar a utilizar o chatbot como principal fonte de acolhimento e orientação e, com isso, deixar de procurar relações humanas ou profissionais de Psicologia qualificados.
A inteligência artificial está disponível a qualquer hora e pode responder rapidamente às dúvidas das pessoas. Entretanto, ela não substitui o atendimento realizado por um profissional qualificado. Produzir textos de maneira adequada não significa compreender uma pessoa do ponto de vista psicológico.
A importância do psicólogo em relação à IA
Na era da inteligência artificial, a importância do psicólogo continua sendo fundamental. O profissional de Psicologia não trabalha apenas com informações. Ele é preparado para ouvir, acolher e compreender os diferentes contextos e significados presentes na vida de cada pessoa.
Na relação terapêutica, duas pessoas com suas próprias histórias e subjetividades estabelecem um encontro profissional. É nessa relação humana que podem surgir novas possibilidades de compreensão e mudança.
Por isso, o surgimento da inteligência artificial não diminui a importância do profissional de Psicologia.
Quando utilizada de maneira responsável, a inteligência artificial pode ajudar o psicólogo em tarefas administrativas e na organização de informações. Com isso, o profissional pode ter mais tempo para estudar os casos, desenvolver sua criatividade e dedicar atenção ao vínculo e à compreensão de cada paciente como uma pessoa única.
Luxton (2026) destaca que a inteligência artificial pode apoiar diferentes áreas da saúde mental, como a pesquisa e os processos terapêuticos. Porém, seu uso precisa estar sempre acompanhado de cuidados com a segurança, as boas práticas e, principalmente, a ética.
Diante disso, o psicólogo do futuro precisará desenvolver uma nova habilidade: o conhecimento sobre inteligência artificial. Será importante compreender como essa tecnologia funciona, conhecer suas limitações e saber avaliar as respostas que ela produz.
Também será necessário conhecer os cuidados que devem ser tomados para proteger os pacientes. Não é preciso rejeitar a tecnologia, mas utilizá-la de maneira crítica e responsável.
Considerações finais
A inteligência artificial pode ser utilizada na Psicologia como uma ferramenta de apoio ao trabalho profissional, mas não deve substituir a relação humana entre paciente e psicólogo.
Embora a IA esteja mudando a forma como as informações psicológicas são acessadas, utilizadas e produzidas, o profissional precisa utilizar essa tecnologia com cuidado e responsabilidade.
A inteligência artificial pode contribuir para a pesquisa, a psicoeducação, que é a explicação sobre o transtorno, a organização de informações, a avaliação de casos, o acompanhamento e o apoio a algumas intervenções psicológicas. No entanto, ela não substitui o profissional humano.
As pesquisas sobre inteligência artificial na Psicologia ainda estão em uma fase inicial. Kolding et al. (2024) mostram que muitos dos estudos existentes ainda são experimentais. Por isso, ainda não é possível afirmar que os sistemas de inteligência artificial sejam capazes de substituir os profissionais de saúde mental.
A tecnologia pode ajudar a pesquisar, organizar informações e produzir materiais. Entretanto, deve existir sempre um profissional humano responsável pela avaliação clínica, pela proteção do paciente e pela ética do atendimento.
Mais importante do que perguntar o que a inteligência artificial pode fazer pelo psicólogo é perguntar o que pode substituir o encontro entre duas pessoas, com suas histórias e subjetividades, que estabelecem uma relação profissional baseada na confiança, na responsabilidade, na compreensão da complexidade humana e na ética.
REFERÊNCIAS
BLEASE, Charlotte; RODMAN, Adam. Generative artificial intelligence in mental healthcare:na ethical evaluation. Current treatment options in psychiatry, v.12, art. 5, 2025. DOI: 10.1007/s40501-024-00340-x. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s40501-024-003340-x. Acesso em:14 set. 2026.
HALDER, Susmita; HALDER, Bibhrajit; MAHATO, Akash Kumar. Navigating AI in mental health care:innovations, ethics, andfuture trends. Singapore: Springer Nature Singapore, 2025. DOI: 10.1007/978-981-96-9744-1.
KOLDING, Sara et al. Use of generative artificial intelligence (AI) in psychiatry and mental health care: a systematic review. Acta Neuropsychiatrica, v. 37, e 37, 2025. DOI: 10.1017/neu.2024.50. Disponível em: https://www.cambridge.org/core/journals/acta-neuropsychiatrica/article/use-of-generative-artificial-intelligence-ai-in-psychiatry-and-mental-health-care-a-systematic-review/C2FA920F366FC101BB10C29949E44FCA. Acesso em :14 set. 2026.
LUXTON, David D. (ed). Artificial intelligence in behavioral and mental health care. 2. Ed. [S. I.]:Academic Press, 2026. DOI: 10.1016/C2024-0-01343-4.
SALAH, Mohammed; ABDELFATTAH, Fadi; AL HALBUSI, Hussam. The good, the bad, and the GPT: reviewing the impacto f generative artificial intelligence on psychology. Current Opinion inPsychology, v. 59, 101872, 2024. DOI: 10.1016/j.copsyc.2024.101872. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2352250X2400085X. Acesso em 14 set. 2026.




