Quando o outro vira inimigo: Por que quem pensa diferente de mim precisa ser destruído?

Você torce para o meu maior rival, pensa diferente de mim, defende ideias nas quais eu não acredito.

Professa outra religião ou não professa nenhuma.

Então eu não gosto de você. Pior: Eu odeio você.

E, em situações extremas, posso chegar a pensar que pessoas como você não deveriam sequer existir.

Como alguém chega a esse ponto?

Talvez essa seja uma das questões mais inquietantes para compreendermos alguns comportamentos coletivos de nosso tempo.

As divergências fazem parte da vida em sociedade. O problema começa quando deixamos de enxergar diante de nós uma pessoa que pensa diferente e passamos a enxergar um inimigo que precisa ser derrotado, humilhado ou eliminado.

A Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung oferece instrumentos importantes para compreendermos esse fenômeno.

Quando discordar deixa de ser suficiente

Pense em uma partida de futebol.

Milhares de pessoas entram em um estádio para assistir a um jogo. A maioria deseja simplesmente torcer, vibrar e comemorar. Entretanto, algumas podem experimentar algo muito diferente.

A camisa do adversário deixa de representar apenas outro clube. Torna-se uma provocação e o torcedor do adversário deixa de ser alguém que prefere outro time e passa a representar “eles”.

O mesmo mecanismo pode aparecer em disputas políticas, religiosas, ideológicas, étnicas e até profissionais.

A divisão vai progressivamente se tornando: Nós e eles; Nós x Eles; e chegar a uma fórmula muito mais perigosa: Nós somos bons. Eles são maus.

Quando isso acontece, o conflito deixa de ser apenas uma divergência sobre ideias, crenças ou preferências.

Ele começa a envolver identidade.

Não é mais “você discorda daquilo em que acredito” e passa a ser “sua existência ameaça aquilo que eu sou.”

Jung e a Sombra: O mal está sempre no outro?

Um dos conceitos mais conhecidos da Psicologia Analítica é a Sombra.

De maneira simplificada, a Sombra reúne aspectos da personalidade que a consciência não reconhece suficientemente, rejeita ou prefere não admitir como pertencentes a si.

Todos nós gostamos de construir uma imagem relativamente positiva sobre quem somos. Afinal de contas que não gosta de ser reconhecido como tolerante, justo, racional, em outras palavras,

O problema é que a psique humana não é constituída apenas pelas características com as quais nosso ego gostaria de se identificar.

Também podemos sentir inveja, agressividade, ressentimento, desejo de poder, egoísmo, intolerância e impulsos que entram em conflito com a imagem idealizada que construímos de nós mesmos.

Quanto menos reconhecemos essa possibilidade em nós, maior pode ser a tentação de encontrá-la, exclusivamente, nos outros.

É aí que entra outro conceito importante para Jung: A projeção.

Quando colocamos nossa Sombra no adversário

Projetar significa, em termos bastante acessíveis, perceber no outro algo que também possui relação com nosso próprio mundo psíquico, mas que não reconhecemos adequadamente como nosso.

Assim surgem frases, perigosamente, absolutas: “Eles são violentos, fanáticos, ignorantes e

Perceba o detalhe: Nunca nós, sempre eles!

Isso não significa que toda crítica ao comportamento de outra pessoa seja uma projeção. Existem comportamentos objetivamente agressivos, intolerantes e destrutivos.

A questão psicológica é outra.

Quando um grupo passa a concentrar todo o bem em si mesmo e todo o mal no adversário, temos um importante sinal de alerta.

Porque, se estou absolutamente convencido de que o mal está apenas do outro lado, posso começar a acreditar que qualquer atitude contra aquele grupo é moralmente justificável.

Até a violência.

E então aparece a multidão

Existe ainda outro ingrediente importante: O grupo.

Sozinho, talvez alguém jamais tivesse coragem de agredir uma pessoa vestindo a camisa de outro clube. Porém, entre uma multidão enfurecida seu comportamento pode mudar.

É aquilo que popularmente costumamos chamar de efeito manada.

É importante fazer uma distinção: “Efeito manada” não é um conceito criado por Jung.

Entretanto, Jung escreveu extensamente sobre os riscos psicológicos envolvidos quando o indivíduo é absorvido pela massa e pela sugestão coletiva.

Em Presente e Futuro, texto pertencente ao volume Civilização em Transição, Jung afirma que, sob determinadas condições coletivas, o julgamento individual pode tornar-se progressivamente inseguro, enquanto a responsabilidade pessoal tende a ser transferida para o coletivo.

Em outra passagem particularmente contundente, afirma que:

“Quanto maior a multidão, mais insignificante se torna o indivíduo.”

A preocupação de Jung é profundamente atual, infelizmente.

Quando o “nós” começa a engolir o “eu”…

Pertencer a grupos é parte natural da experiência humana seja em família, religião, nacionalidade, profissão, clube, grupos de amigos e diferentes comunidades das quais fazemos parte. Logo, o problema não está no pertencimento.

O problema aparece quando a identidade coletiva começa a substituir a consciência individual e pensamento crítico deixa de existir. O discernimento de “certo e errado” individual deixa de existir e é substituído pelo do grupo.

Ações impensáveis individualmente passam a ser normalizadas porque “todos estão fazendo”.

“O pensamento de que aquela pessoa é um ser humano que discorda de mim” é substituído pelo pensamento de que “é meu inimigo e me ameaça. Preciso eliminá-lo”!

Essa pequena mudança de linguagem pode esconder uma enorme transformação psicológica em que a pessoa concreta desaparece e outras categorias abstratas surgem: “Os rivais, os inimigos, os infiéis, os desonestos.”

E é muito mais fácil agredir uma categoria abstrata do que um ser humano que possui nome, família, afetos, medos, sonhos e uma história.

O perigo da desumanização

A violência raramente começa com o primeiro soco. Antes da agressão física costuma existir um processo psicológico e social no qual o outro vai perdendo sua condição de semelhante.

Primeiro ridicularizamos, depois generalizamos  e, em seguida, desqualificamos.

Deixamos de escutar e concluímos que o diálogo é impossível.

Finalmente, podemos começar a considerar legítimo silenciar o outro por qualquer meio e é nesse ponto que a intolerância deixa de ser apenas um problema individual e se transforma em adoecimento das relações sociais.

Uma sociedade democrática e plural depende justamente da possibilidade de convivermos com pessoas que não pensam como nós.

Discordar não é o problema. O problema é perder a capacidade de reconhecer a humanidade naquele de quem discordamos.

E as redes sociais?

O ambiente digital pode intensificar alguns desses mecanismos.

Nas redes, muitas vezes encontramos comunidades formadas por pessoas que compartilham opiniões semelhantes. Algoritmos, escolhas pessoais e dinâmicas de grupo podem favorecer ambientes nos quais determinadas crenças são repetidamente confirmadas.

Pouco a pouco, podemos ter a impressão de que “todo mundo pensa como eu.”

Consequentemente, quem pensa diferente pode começar a parecer estranho, absurdo ou até ameaçador. Além disso, a distância física modifica a comunicação.

Talvez alguém jamais dissesse determinadas palavras olhando diretamente nos olhos de outra pessoa, mas protegido por uma tela, se sente à vontade para insultar, humilhar e ameaçar alguém que sequer conhece.

O outro deixa de ter rosto e, quando o outro perde o rosto, podemos esquecer mais facilmente que existe ali uma pessoa.

O que a psicoterapia pode fazer?

A Psicologia Analítica não propõe eliminar nossas diferenças.

Muito menos pretende tornar as pessoas neutras, sem convicções ou sem pertencimentos.

O caminho é outro: Ampliação da consciência.

Em psicoterapia, podemos começar a perguntar:

Por que determinada opinião me provoca tanta raiva?

Por que preciso que o outro concorde comigo?

O que sinto ameaçado quando alguém questiona minhas crenças?

Por que determinada pessoa ou grupo desperta em mim uma hostilidade desproporcional?

Quanto daquilo que condeno no outro, preciso também reconhecer em mim?

Essas perguntas não exigem que abandonemos nossas convicções.

Exigem, ainda, algo mais difícil: Que assumamos responsabilidade por elas e por aquilo que fazemos em nome delas.

Individuação: Pertencer sem desaparecer

Chegamos então a um conceito central da Psicologia Analítica: A individuação.

Individuar-se não significa tornar-se egoísta ou afastar-se da sociedade, pelo contrário, significa desenvolver progressivamente uma relação mais consciente com a própria totalidade psíquica.

Isso inclui reconhecer nossa Sombra, questionar nossas projeções, assumir responsabilidade pelas próprias escolhas e desenvolver a capacidade de pertencer a um grupo sem entregar ao grupo nossa consciência.

Jung escreveu uma frase particularmente significativa em Presente e Futuro:

“A resistência à massa organizada só pode ser realizada pelo homem que esteja tão bem organizado em sua individualidade quanto a própria massa.”

Talvez possamos traduzir essa ideia para nossa vida cotidiana de maneira muito simples: Eu posso pertencer sem desaparecer.

Posso torcer apaixonadamente pelo meu clube sem odiar quem veste outra camisa, possuir convicções religiosas profundas sem considerar inferior quem acredita de maneira diferente ou, ainda, defender ideias políticas sem transformar quem discorda de mim em alguém moralmente desprezível.

Posso fazer parte do “nós” sem abandonar o “eu”.

O diferente não precisa ser meu inimigo

Talvez uma das maiores demonstrações de maturidade psicológica seja suportar a existência do diferente.

Não apenas tolerá-lo, porque somos obrigados, mas compreender que o outro não precisa pensar como nós para possuir dignidade. Significa rejeitar a violência, o preconceito ou qualquer comportamento destrutivo.

Significa separar duas coisas fundamentais: Combater uma ideia não exige destruir a pessoa que a defende.

Podemos argumentar, discordar, criticar, estabelecer limites e afastar-nos quando necessário.

E ainda assim reconhecer diante de nós outro ser humano.

Talvez, seja exatamente a,í que começa uma sociedade psicologicamente mais madura.

Quando conseguimos dizer:

“Eu discordo profundamente de você. Posso combater suas ideias e você pode combater as minhas. Mas você não precisa deixar de existir para que eu possa continuar sendo quem sou.”

E talvez exista uma última pergunta que mereça ser feita:

Quando estou cercado por pessoas que pensam como eu, continuo pensando por mim mesmo ou apenas penso como a multidão espera que eu pense?

A resposta pode dizer muito sobre o quanto realmente somos donos das nossas próprias convicções.

 

Para continuar a reflexão

JUNG, C. G. Civilização em transição. Petrópolis: Vozes. Obras Completas de C. G. Jung, v. 10.

JUNG, C. G. O eu e o inconsciente. Petrópolis: Vozes.

JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes.

NEUMANN, Erich. Psicologia profunda e nova ética. São Paulo: Paulus.

STEIN, Murray. Jung: o mapa da alma: uma introdução. São Paulo: Cultrix.

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