Quando comprar deixa de ser uma escolha: o que a compulsão por compras pode revelar sobre nossas emoções

Nem toda compra começa com uma necessidade

Você entra em um aplicativo “só para olhar”.

Alguns minutos depois, encontra exatamente aquilo que nem sabia que queria.

A promoção termina em poucas horas.

O frete é grátis.

O pagamento pode ser parcelado.

Você compra.

Por alguns instantes, sente uma sensação agradável.

Depois, fecha o aplicativo.

E, antes mesmo de a encomenda chegar, outra sensação aparece.

A culpa.

Muita gente acredita que isso acontece porque gosta de consumir.

Mas, na clínica, aprendi que quase nunca é tão simples.

Na maioria das vezes, a compra é apenas a parte visível de algo muito mais profundo.

O produto nem sempre é o que estamos procurando

Existe uma diferença importante entre desejar um objeto e precisar dele para aliviar uma emoção.

Comprar uma roupa porque você gostou dela faz parte da vida.

Presentear alguém também.

Planejar a aquisição de algo importante pode ser saudável.

O problema começa quando a compra deixa de atender uma necessidade prática e passa a cumprir uma função emocional.

Ela oferece conforto.

Distração.

Controle.

Reconhecimento.

Uma sensação temporária de que tudo está melhor.

Mas esse efeito costuma durar pouco.

No podcast, compartilhei uma reflexão que resume bem esse processo

Durante minha conversa com Lívia Drummond no podcast de julho do Psi com Dendê, disse uma frase que sintetiza aquilo que observo com frequência na prática clínica:

“Muita gente acredita que a compulsão por compras acontece porque a pessoa gosta de gastar. Mas, quase sempre, o problema não é esse. A questão está na emoção que ela tenta aliviar.”

Talvez essa seja a principal mudança de perspectiva.

Não estamos falando apenas de dinheiro.

Estamos falando de sofrimento emocional.

Comprar pode funcionar como um analgésico emocional

Imagine alguém que teve um dia extremamente difícil.

Recebeu críticas.

Sentiu-se sozinho.

Foi rejeitado.

Ou simplesmente terminou a semana exausto.

Ao abrir um aplicativo de compras, experimenta uma pequena sensação de prazer.

A expectativa da entrega.

A ideia de uma recompensa.

A impressão de que fez algo por si.

Tudo isso produz um alívio real.

O problema é que ele dura pouco.

E, quando desaparece, o sofrimento continua exatamente onde estava.

A água do mar mata a sede?

No podcast, utilizei uma metáfora que gosto muito porque ela traduz esse ciclo de maneira simples:

“É como tentar matar a sede bebendo água do mar. Quanto mais você bebe, mais sede sente.”

A compra pode aliviar por alguns minutos.

Mas, quando ela é usada para preencher um vazio emocional, tende a aumentar o próprio problema.

Além da emoção inicial, surgem outras.

Culpa.

Preocupação financeira.

Arrependimento.

Vergonha.

E o impulso de comprar novamente para aliviar tudo isso.

É assim que muitas pessoas entram em um ciclo difícil de interromper.

O que Aaron Beck nos ajuda a compreender

A Terapia Cognitivo-Comportamental, desenvolvida por Aaron Beck, mostra que nossos comportamentos são influenciados pela maneira como interpretamos as situações e nossas próprias necessidades.

Imagine alguém que, sem perceber, começa a acreditar:

“Se eu comprar isso, vou me sentir melhor.”

“Eu mereço essa recompensa.”

“Depois de tudo o que aconteceu, preciso compensar meu dia.”

Esses pensamentos parecem fazer sentido naquele momento.

Mas, quando passam a ser a principal forma de lidar com emoções difíceis, o comportamento deixa de ser uma escolha totalmente consciente.

Ele passa a funcionar como uma resposta automática ao sofrimento.

O vazio nunca esteve na carteira

Há um detalhe interessante.

Quase ninguém compra esperando sentir culpa.

O que as pessoas procuram é outra coisa.

Pertencimento.

Reconhecimento.

Conforto.

Controle.

Alívio.

Segurança.

A compra apenas parece oferecer esse caminho.

Mas nenhuma dessas necessidades pode ser realmente satisfeita por um objeto.

Porque elas pertencem ao mundo das relações, das emoções e da forma como nos percebemos.

Antes de finalizar a compra, faça uma pausa

Na clínica, gosto de propor uma pergunta simples.

Ela não impede ninguém de comprar.

Mas costuma transformar a forma como a decisão é tomada.

Antes de clicar em “Finalizar compra”, pergunte a si mesmo:

“O que eu realmente estou tentando comprar?”

Talvez a resposta seja uma roupa.

Talvez seja um celular.

Mas talvez seja acolhimento.

Talvez seja descanso.

Talvez seja sentir que você é suficiente.

Quando fazemos essa pausa, muitas decisões deixam de ser impulsivas e passam a ser conscientes.

Algumas perguntas para refletir

  • Em quais momentos você costuma sentir vontade de comprar?
  • Como estava seu dia antes dessa compra?
  • O que você esperava sentir depois dela?
  • Essa sensação permaneceu?
  • Existe outra forma de atender essa necessidade emocional?

Comprar não é o problema. O problema é quando a compra precisa resolver aquilo que ela nunca poderá resolver.

Vivemos em uma sociedade que nos oferece soluções rápidas para quase tudo.

Com um clique, recebemos produtos em casa.

Mas emoções não chegam em caixas.

Nem pertencimento.

Nem autoestima.

Nem segurança.

Essas experiências são construídas de outra maneira.

Por isso, talvez a pergunta mais importante nunca tenha sido:

“Quanto isso custa?”

Mas sim:

“O que eu espero que essa compra faça por mim?”

Porque, às vezes, não estamos procurando um produto.

Estamos procurando conforto, reconhecimento ou pertencimento.

E isso nenhum cartão de crédito consegue entregar.

Referências

  • Beck, A. T. Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. Artmed.
  • Leahy, R. L. Técnicas de Terapia Cognitiva. Artmed.
  • Müller, A., Mitchell, J. E., & de Zwaan, M. (2015). Compulsive Buying. American Journal on Addictions.
  • Black, D. W. (2007). Compulsive Buying Disorder: Definition, Assessment, Epidemiology and Clinical Management. CNS Drugs.
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