O termo habilidades sociais (HS) origina-se do campo teórico-prático do treinamento de habilidades sociais (THS) o qual vem sendo amplamente caracterizado por Del Prette e Del Prette (1999; 2001 apud Bolsoni-Silva & Carrara, 2010), que fizeram extensa revisão da literatura, apresentando taxonomias e conceituações, explicitando influências de abordagens teóricas e implicações para a pesquisa e intervenção na área.
Segundo Bolsoni-Silva & Carrara (2010), o movimento de Treinamento de Habilidades Sociais (THS) teria sido iniciado por Salter (1949), retomando como base os achados de Pavlov acerca do reflexo condicionado, e isso lhe permitiu criar técnicas para aumentar a expressividade verbal e facial. Em 1958 Wolpe expandiu e especificou o repertório de Habilidades Sociais identificando a possibilidade de avaliar e intervir nos comportamentos relacionados com a expressão de sentimentos negativos assim como na defesa dos próprios direitos, o que ele denominou de assertividade. Lazarus (1977 apud Bolsoni-Silva & Carrara, 2010) trabalhou com Wolpe e fez crítica a ênfase exagerada com relação à expressão de sentimentos negativos e sugeriu, então, a inserção da expressão de sentimentos positivos (Del Prette & Del Prette, 1999 apud Bolsoni-Silva & Carrara).
Na contemporaneidade, Caballo (1996 apud Bolsoni-Silva & Carrara 2010) articula conceitos entre Habilidades Sociais e expressão de atitudes, sentimentos, opiniões e desejos. Ele enfatiza o respeito a si próprio e aos outros, na resolução de problemas imediatos em relação a uma situação e na diminuição da probabilidade de problemas futuros.
De acordo com Del Prette e Del Prette (1999 apud Bolsoni-Silva & Carrara 2010), a assertividade envolveria a expressão apropriada de sentimentos negativos e a defesa dos próprios direitos, e que um indivíduo socialmente habilidoso deveria apresentar habilidades de comunicação, de resolução de problemas interpessoais, de cooperação e de desempenhos nas atividades profissionais. Caballo (2003 apud Pureza, 2012, Rusch, 2012, Wagner, 2012 & Oliveira, 2012, p. 3) destaca que:
As HS são comportamentos que expressam sentimentos, atitudes, opiniões, ou direito de uma forma adequada e eficaz para com o contexto, respeitando o comportamento das outras pessoas e resolvendo problemas, diminuindo a probabilidade do surgimento de adversidades futuras.
Del Prette & Del Prtette (2001, apud Pureza et al., 2012) destacam que essas Habilidades Socias são consideradas como uma classe de respostas aprendidas e que formam o repertório comportamental do sujeito fazendo com que o mesmo tenha possibilidade de agir e lidar de maneira adequado em situações das mais diversas.
O tema de Habilidades Sociais foi escolhido para esta pesquisa visando o desenvolvimento dessas habilidades em universitários do primeiro, segundo e terceiro semestres de psicologia de uma faculdade particular em Salvador-Bahia. Este treinamento em HS foi desenvolvido devido a pouca ênfase atribuída à formação destes universitários, objetivando trabalhar o repertório de habilidades sociais (DEL PRETTE, 1978; DEL PRETTE, DEL PRETTE & CORREIA, 1992 apud BANDEIRA; QUAGLIA; FREITAS; SOUSA; COSTA; GOMIDES & LIMA, 2006). Desenvolver as HS é uma forma de capacitar os estudantes de psicologia a terem um comportamento mais competente e habilidoso em seus sentimentos, atitudes, desejos, opiniões ou direitos de uma forma mais adequada à situação que estão vivenciando, o que lhes permite a resolução de problemas imediatos e também diminui a probabilidade de problemas futuros (CABALLO, 1996/2002 apud MAGALHÃES & MURTA, 2003). O trabalho de HS dentro da universidade acontece muitas vezes de forma “oculta”, ou seja, os indivíduos tentam se adaptar sozinhos às novas demandas que surgem durante o período de formação universitária. Apesar disso, existem indivíduos que apresentam muitas dificuldades e tornam-se desamparados por não conseguirem aumentar seus repertórios sociais (PACHECO & RANGÈ, 2006 apud BOLSONI-SILVA; LEME; LIMA; COSTA-JÚNIOR; CORREIA, 2009). Furtado e cols. (2003 apud Bolsoni-Silva, 2009) e Cole, Lazarick e Howard (1986, apud Bolsoni-Silva, 2009) afirmam que as vivências dentro das universidades, quando não proporcionam aos universitários uma boa qualidade de vida, acabam por tornarem-se experiências estressantes e por vezes depressivas, além de influenciar no aproveitamento acadêmico.
O tema Habilidades Sociais é relevante para a psicologia porque vai propiciar ao estudante da área durante e após o término do curso, capacidade e competência em habilidades sociais para que ele possa gerir de forma qualificada tanto as suas questões pessoais quanto questões em relação ao seu cliente/paciente, tornando sua vida profissional mais eficiente. O campo teórico e prático das HS tem sido tema de inúmeros estudos dentro da psicologia nas últimas décadas devido a sua aplicação na parte clínica e em outros diferentes contextos (BANDEIRA & QUAGLIA, 2005; VILA, 2005; MURTA, 2005; DEL PRETTE et al., 2004; MAGALHÃES & MURTA, 2003).
O treinamento de habilidades sociais tem como objetivo fazer com que os indivíduos tenham uma capacidade maior e melhor de relacionamento interpessoal, possibilitando-lhes compreender o outro e ser compreendido. Dessa forma o treinamento em habilidades sociais ajuda as pessoas a conviverem de forma mais harmoniosa no mundo.
Neste trabalho foram desenvolvidas várias habilidades sociais com estudantes de psicologia, dentre elas: habilidade de comunicação, civilidade, assertividade, empatia, feedback e expressividade emocional. A comunicação é um mecanismo essencial da vida e ela pode ser tanto verbal como não verbal. Algumas das principais habilidades de comunicação são: iniciar e encerrar conversação, fazer e responder perguntas, gratificar e elogiar, dar e receber feedback. A habilidade social de civilidade está relacionada com a boa educação e os bons modos, pois aqueles que desconsideram essa norma acabam por ser marginalizados pelos indivíduos e grupos que as adotam. As falhas nessa área se originam dos desconhecimentos das normas e cultura do grupo no qual o indivíduo quer se inserir, e de falhas na aprendizagem dessas habilidades no próprio grupo. A assertividade é a habilidade social na qual o indivíduo aprende a ser pacífico e não passivo. Ele aprende a defender os seus direitos sem timidez ou agressividade. Dentre as habilidades presentes na assertividade podemos destacar: defender os próprios direitos e o dos outros, recusar pedidos, lidar com críticas, expressar sentimentos negativos de raiva, desagrado, desconforto, discordar e solicitar mudanças de comportamentos. A empatia é a capacidade de compreender e sentir o que alguém pensa e sente em uma situação de demanda afetiva, onde o indivíduo comunica-se adequadamente ao colocar-se no lugar do outro compreendendo seu sentimento. Dar e pedir feedback são habilidades essenciais para o convívio social. Através do feedback regulamos nossos desempenhos e o das pessoas com que convivemos, objetivando relações saudáveis e satisfatórias. Esse termo vem se popularizando no senso comum, onde ocorrem alguns equívocos. As pessoas confundem feedback com elogio (se for positivo) ou com críticas (se for negativo). Sem feedback o mundo físico e social seriam confusos e as pessoas não saberiam se comportar em determinadas situações. A expressividade emocional está inserida no contexto de satisfação e/ou manutenção de compromisso estabelecido ou em vias de se estabelecer. Ela está presente no cotidiano de qualquer pessoa saudável e contribui de maneira decisiva para a qualidade de vida, o equilíbrio emocional e a harmonia entre os seres humanos. A habilidade de expressividade emocional é, certamente, aquela que depende mais de componentes não verbais e demanda menor complexidade dos verbais. Ela também está relacionada com valores e atitudes dos indivíduos e requer coerência entre sentimento, pensamento e ação. A expressividade emocional engloba a expressão de afeto positivo, especialmente as habilidades sociais empáticas, como aquelas envolvidas em fazer amizade, expressar solidariedade e cultivar amor (DEL PRETE & DEL PRETTE, 2010).
No artigo “Treinamento de habilidades sociais em estudantes de psicologia: um estudo pré-experimental” Magalhães & Murta (2003) expõe o estudo para identificar possíveis efeitos de um programa de THS em relação ao repertório de HS de estudantes do curso de psicologia. Percebe-se a partir dos resultados nos participantes que a maioria deles apresentou melhorias no repertório de HS. Houve melhoria no escore total de HS de 12, dos 13 participantes. Em relação à classificação clínica do repertório de HS 7, dos 13 participantes obtiveram progresso, foi constatado uma melhoria do grupo, em média, nos 5 escores fatoriais de HS e um progresso na classificação clínica do repertório de HS do grupo em todos os fatores. O trabalho de HS realizado com psicólogos em formação ajudou a melhorar a saúde, a qualidade de vida e as relações pessoais desses profissionais. (DEL PRETTE, Z.A.P. & DEL PRETTE, A., 2001 apud MAGALHÃES & MURTA, 2003).
Os participantes com repertório deficitário de HS ao interagirem com os de repertório mais elaborado tiveram modelos adequados de aprendizagem. Esta experiência foi gratificante para os participantes mais habilidosos por sentirem-se úteis para com os colegas e por relembrarem que no passado eles também tinham as mesmas dificuldades.
Dos diversos fatores de HS avaliados, notou-se que o Autocontrole da Agressividade foi um dos fatores onde ocorreu menos melhoria. Os participantes com estilo de comunicação não assertivo em contato com as instruções sobre defesas de direitos interpessoais e assertivos passaram a empregar um estilo de comunicação agressivo em suas relações para só posteriormente usarem a assertividade. Seria necessária uma avaliação de follow-up para verificar porque a comunicação agressiva seria uma transição para a comunicação assertiva em indivíduos não assertivos.
Embora os resultados suponham ser a intervenção eficaz na melhoria do repertório de HS dos envolvidos, não é possível afirmar que tenham sido causados pela intervenção, devido ao delineamento pré-experimental empregado. A não existência de um grupo de controle ou de medidas repetidas intra-sujeito, pré e pós-intervenção dificultaram a interpretação de causalidade não afastando a possibilidade de outras variáveis terem sido responsáveis ou corresponsáveis pela mudança observada nos escores, como efeitos da história, maturação e testagem (CAMPBELL & STANLEY, 1979 apud MAGALHÃES & MURTA, 2003). Desta forma, recomenda-se intervenções futuras que possam ser implementadas através de delineamentos experimentais ou quase experimentais. Nos estudos amostras maiores e cuidados para maximizar a validade interna e externa (COOK & CAMPBELL, citados em CANO, 2002 apud MAGALHÃES & MURTA, 2003) deverão ser adotadas para se obter resultados confiáveis que possam ser generalizados, onde os mesmos poderão subsidiar discussões acerca da conveniência ou não de se tornar o THS prática regular nos cursos de graduação em Psicologia.
Este estudo foi uma contribuição promissora ao evidenciar a possibilidade de associar intervenção e pesquisa, mesmo com limitações de delineamento, e por sugerir que o THS grupal favorece o desenvolvimento de HS em estudantes de Psicologia. Replicações deste estudo e aperfeiçoamento metodológicos farão com que novos horizontes surjam acerca dos dados que foram encontrados na pesquisa (MAGALHÃES & MURTA, 2003).
De acordo com os estudos, alguns autores chegaram à conclusão de que os profissionais de psicologia reconhecem o quanto é importante um repertório interpessoal elaborado, como parte da competência profissional do psicólogo. Porém, eles reconhecem que algumas habilidades, tidas como de maior importância para sua atuação, ainda não compõem seus repertórios. Tais resultados foram conseguidos no contexto de uma única pesquisa e a amostra utilizada era composta por profissionais que participavam de um congresso, o que pode constituir uma amostra particular de psicólogos. Conclui-se, portanto, que há uma carência de pesquisas que corroboram ou não com os resultados encontrados sobre o domínio das HS do ponto de vista de psicólogos que atuam nesta área. Assim, treinamentos em HS são necessários para que, principalmente o público de alunos de cursos de psicologia, possam ter uma experiência importante para eles, enquanto futuros profissionais, que irão lidar com a saúde mental de seres humanos.
REFERÊNCIAS:
BANDEIRA, M.; QUAGLIA, M. A. C.; FREITAS, L. C.; SOUSA, A. M. DE; COSTA, A. L. P.; GOMIDES, M. M. P.; LIMA, P. B. Habilidades interpessoais na atuação do psicólogo. Interação em psicologia, 2006, 10(1), p.139-149. Disponível em: <http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs/index.php/psicologia/article/viewFile/5710/4151>. Acesso em: 01 jun. 2015.
BOLSONI-SILVA, A. T. Supervisão em habilidades sociais e seu papel na promoção deste repertório em estagiários de psicologia. Revista Brasileira de terapias Cognitivas, 2009, Volume 5, Número 1. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-568720090 00100003>. Acesso em: 01 jun. 2015.
BOLSONI-SILVA, A; CARRARA K. Habilidades sociais e análise do comportamento: compatibilidades e dissensões conceitual-metodo lógicas. Psicologia em revista, belo horizonte, v.16, n.2, p. 330-350, ago. 2010. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo. php?pid=S11682010000200007&script=sci_arttext>. Acesso em: 01 jun 2015.
BOLSONI-SILVA, A.; LEME, V. B. R.; LIMA, A. M. A. DE.; COSTA-JUNIOR, F. M. DA.; CORREIA, M. R. G. Avaliação em um treinamento de habilidades sociais (THS) com universitários recém-formados. Interação em psicologia, 2009,13(2), p. 241-251. Disponível em:<http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs/index.php/ psicologia/article/viewFile/13597/11370>. Acesso em: 01 jun 2015.
DEL PRETTE, A.; DEL PRETTE, Z. A. P. – Psicologia das relações interpessoais: vivências para o trabalho em grupo. 8. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.
MAGALHÃES P. P.; MURTA, S. G. Treinamento de habilidades sociais em estudantes de psicologia: um estudo pré-experimental. Temas em psicologia da SBP-2003, Vol.11, nº 1, 28-37. Disponível em:<http://pepsic.bvsalud.org/pdf/tp/v11n1/v11n1a04.pdf>. Acesso em: 01 jun. 2015.
PUREZA, J. DA R.; RUSCH, S. G. DE S.; WAGNER, M.; OLIVEIRA, M. DA S. Treinamento de habilidades sociais em universitários: uma proposta de intervenção. Revista Brasileira de terapias cognitivas, 2012, 8 (1), pp.2-9. Disponível em:<http:pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1808-56872012000100002&script=sci_arttext>. Acesso em: 01 jun. 2015.





